MACHADO DE ASSIS: AS MÚLTIPLAS FACES DO SER MACHADIANO VEICULADAS PELOS NOMES PRÓPRIOS

 

Tania Maria Nunes de Lima Camara - Univ. Estácio de Sá

 

 

Desde os tempos mais remotos, a posse de um nome é privilégio de todo ser humano. Cada criança, momento que nasce, recebe de seus pais um nome.

Conceituado como elemento de individuação, o nome próprio designa um único objeto identificado num ato de fala.

Ao lado, porém, dessa função designativa, que o aponta como elemento estritamente denotativo, ocorre ainda a possibilidade de o antropônimo conotar atributos, tornando-se capaz de esclarecer aspectos culturais relevantes.

A Grécia, berço da cultura ocidental, é pródiga em exemplos que confirmam o componente significativo do nome próprio. Entre os heróis das tragédias gregas, um deles, ao nascer, teve os pés amarrados, provindo da conseqüência desse fato o seu nome: Édipo, "pés inchados".

Relacionado ainda à história do pensamento ocidental, é extremamente relevante, na formação dos nomes bíblicos, o valor do antropônimo como traço cultural. Considere-se, por exemplo, o nome Pedro, dado por Jesus a Simão Barjona. No encontro de Simão com Jesus, este lhe disse: "Tu es Simon, filius Jona; tu vocaberis Cephas, quod interpretatur Petrus... tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam..." (Nascentes: 1952, p.2371). Em sentido figurado, pedra remete a "duro, rijo"; assim sendo, não se trata, efetivamente, de uma simples mudança de nome; é um novo batismo, pelo qual o nome Pedro não é atribuído por acaso.

O campo da literatura é outro em que o nome próprio encontra terreno fértil para leituras possíveis. O artista nomeia os personagens da maneira como o faz por apresentar uma sensibilidade lingüística apurada, ou por proceder a um batismo intencional. O importante, no entanto, é considerar que, a partir do momento em que as evidências existam, o modo como surgem torna-se irrelevante, observado, unicamente, o produto final.

Alguns nomes revelam características físicas do personagem, como, em Gogol, Bul'ba é um antropônimo que liga a aparência de um homem gordo e poderoso a uma batata (bul'ba).

Também no âmbito da literatura brasileira, exemplos podem ser levantados, mostrando o antropônimo como elemento contextual significativo e dentro do contexto em que está inserido deve ser analisado.

Os textos de Machado de Assis permitem enveredar por essa seara, dado que o lado bruxo da personalidade do autor torna-o capaz dos mais diferentes truques e alquimias na busca da melhor expressão.

Como toda obra literária, a narrativa machadiana apresenta diversos níveis de leitura e quanto mais profundo for o mergulho do leitor, mais fortes serão as revelações. O texto em si tudo mostra, mais, ou menos, claro; cabe, pois, ao leitor ter olhos para enxergar e decifrar o enigma que o autor bruxo (ou seria o bruxo autor?), na condição da esfinge, propõe: a percepção plena do texto, na medida em que transpõe os obstáculos labirínticos da trama narrativa.

O antropônimo, certamente, constitui uma dessas armadilhas. O nome, ora confirmando a postura do personagem, ora ironizando-a, passa a ser, pois, uma via pela qual o autor relaciona forma e conteúdo.

O trabalho de linguagem, moldando-a na qualidade de matéria-prima para a construção do texto, envolve, entre outros indicadores estéticos e estilísticos, a escolha do nome dos personagens, este apropriado àquele que é nomeado, visto pelo direito ou pelo avesso, conforme seja a intenção de quem escreve.

O próprio texto machadiano revela o interesse que o autor demonstra em relação ao nome próprio e ao efeito expressivo que este produz.

 

... A filha era Maria Benedita, nome que a vexava por ser de velha, dizia ela; mas a mãe retorquia-lhe que ... nomes adequados às pessoas eram imaginações de poetas e contadores de histórias ... [1]

 

Personagem do romance "Quincas Borba", a citada mãe é tia Maria Augusta, metalingüisticamente, o próprio Machado, manifestando a preocupação com a escolha dos nomes próprios num procedimento seu, o papel de um contador de histórias. O fato de a referida passagem achar-se no discurso indireto, de certa forma, reforça a idéia do narrador, onisciente, metamorfoseado no personagem, reproduzindo, sob forma de relato, a posição deste em relação à idéia apresentada.

No conto "O Dicionário", Bernardino, o personagem central, recorre a dois ministros, em busca de auxílio, ao que estes respondem:

 

Nós, Alfa e Ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as cousas que respeitam à linguagem. A nossa idéia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória[2].

 

Os ministros declaravam-se, em função dos seus nomes, aptos a resolver o problema que aflige o soberano. Alfa e Ômega, letras do alfabeto grego, na qualidade de nomes próprios, constituem argumento de autoridade para a resolução de problemas relativos à linguagem; ninguém melhor do que eles.

Assim sendo, é possível afirmar que, quando Machado de Assis nomeia o personagem, o faz, conscientemente ou não, em função do papel que lhe destina.

Intenção e linguagem passam a estabelecer um forte elo, numa estreita relação entre conteúdo e forma. Os traços são revelados a partir da análise contida no nome próprio dos personagens, num processo sensível de decifração, de dedução e de exploração das diferentes possibilidades daquilo que está virtualmente presente em cada antropônimo.

A metáfora que se constrói a partir da ligação entre nome e personagem estabelece uma das seguintes relações, levando em conta a maneira como este se apresenta ao longo da narrativa: similitude ou ironia. Há similitude quando o personagem em questão confirma o significado do seu nome, enquanto a ironia ocorre quando aquele contraria tal significado.

Por sua vez, a dialética similitude-ironia não ocorre aleatoriamente. De uma certa maneira, acaba por responder à ideologia do Realismo, ao desejo de ruptura em relação ao Romantismo.

Na relação de similitude, encontram-se os nomes cujos significados confirmam a postura dos personagens no decorrer da narrativa, ora ratificando traços positivos presentes no significado de seus nomes, ora destacando traços negativos, conforme o papel desempenhado pelos diferentes actantes.

No que diz respeito à ironia, os antropônimos opõem-se ao comportamento dos personagens. Tal procedimento constitui, assim, mais um dado a considerar na tão propagada ironia machadiana, tema desenvolvido em estudos consagrados.

"Memórias Póstumas de Brás Cubas", na condição de iniciador da segunda fase machadiana, apresenta predominância de personagens que ironizam ou reforçam características negativas dos personagens, por intermédio do significado de seus nomes. O desmascaramento da hipocrisia social torna-se, desse modo, evidente.

Brás Cubas, fio condutor da narrativa do romance em questão, tem o seu prenome formado a partir do latim Blasius, nome de santo martirizado na Armênia. É, no entanto, apresentado como merecedor da alcunha de "menino diabo... e verdadeiramente não era outra cousa..., dos mais malignos"[3]do seu tempo, afeiçoado à "... contemplação da injustiça humana, a explicá-la, a classificá-la por partes ..."[4]. Além disso, não deixa de ser irônico o fato de ser o narrador um defunto autor: Brás Cubas morrera e veio, depois de morto, contar suas memórias. Na verdade, quem vivenciara os episódios narrados fora o Brás Cubas que vivera no período romântico. A morte do personagem metaforiza a própria mudança dos valores estabelecidos por aquele estilo de época; a partir daí, passa a vigorar uma nova concepção estética e é com essa outra visão que o personagem narra ao leitor suas experiências de vida.

Virgília, a virgem, a cândida, a pura, foi, ironicamente, o grão pecado da juventude de Brás. Pureza e pecado, uma relação paradoxal, bem expressam o perfil psicológico do personagem: um "diabrete angélico", no dizer de Brás. A facilidade de dissimular, de disfarçar marca, de forma categórica, o personagem em questão.

Do mesmo modo, Eugênia, a "flor da moita", ironiza o significado do seu nome. Tal prenome provém do grego, "de origem nobre, de alto nascimento", acrescida a idéia de "ciência que estuda as condições mais propícias ao aprimoramento da raça", identifica um ser que resulta de um relacionamento não reconhecido socialmente entre Dona Eusébia e Dr. Vilaça, mais próxima da condição de bastarda do que da situação de alguém nobre de nascimento, além de coxa de nascença.

No que diz respeito à similitude, os personagens que, de alguma forma, têm influência direta sobre Brás Cubas polarizam um conjunto de características negativas. Por exemplo, Lobo Neves, marido de Virgília. No campo simbólico "o cão feroz", o "animal furioso", o "estraçalhador", o "espírito maligno", o lobo, associado à "frialdade extrema", Neves.

Em "Quincas Borba", o personagem homônimo constitui ironia em relação ao conteúdo do seu nome. Joaquim de batismo, o antropônimo evoca o "elevado de Deus", superior aos demais seres humanos; foi ironicamente tratado, dada a condição de loucura que o autor reservou ao personagem.

Pedro Rubião de Alvarenga une a ironia e a similitude. Como Pedro, teria a função de fazer-se a pedra sobre a qual se desenvolveria a Humanitismo, o que, efetivamente, não aconteceu. O "ruivo encarniçado", Rubião fez-se estrangeiro em seu próprio país, presa fácil das armadilhas do Rio de Janeiro, com o qual não tinha intimidade. Com relação ao sobrenome De Alvarenga, "originário de Álvaro", por sua vez, "muito circunspecto", o personagem ironiza o significado do seu nome, já que destruiu tanto a herança pecuniária quanto a filosófica, deixada por Quincas Borba, em função da desobediência ou da traição do discípulo à orientação do mestre.

A "ciência, sabedoria", relacionada à "sabedoria divina" do nome Sofia, encontra no personagem em questão também uma postura irônica, uma vez que a vaidade, o interesse financeiro, e não o saber, constituem seus traços característicos, carregados de forte dose de sensualidade.

Cristiano, marido de Sofia, tem seu prenome ligado aos homens piedosos festejados pela Igreja. O comportamento do personagem, ao longo da narrativa, demonstra, porém, ironia em relação ao significado do nome, já que não apresenta qualquer traço cristão, na medida em que se aproveita da ingenuidade de Rubião para tomar-lhe os bens.

As escolhas de Machado de Assis deixam bem evidente a intenção de desnudar a hipocrisia da sociedade da época, utilizando a ficção com forma de atingir tal objetivo.

Com relação a "Dom Casmurro", o personagem narrador, Bentinho, recebera de batismo o nome Bento, que significa "louvado, elogiado", diretamente relacionado a São Bento, fundador da Ordem dos Beneditinos, monges contemplativos, voltados para Deus. Sua postura, no romance, contraria o significado do seu nome, não só por não ter querido seguir a carreira religiosa, mas também pelo fato de, ao contrário de São Bento, o advogado contra as forças de Satanás, agir em defesa de bens materiais.

Afora a mãe, as duas pessoas a que Bentinho mais se dedicou foram justamente aquelas por quem ele acabou alimentando um grande ódio: Capitu e Escobar.

Capitu, hipocorístico de Capitolina, traz, em sua personalidade, marcas explícitas do conteúdo significativo do seu nome. À semelhança dos deuses soberanos, que usavam como recurso o dom da arte e da astúcia, capaz de cegar, de ensurdecer, de paralisar os adversários e de arrebatar toda e qualquer eficácia de suas armas, Capitu usava a astúcia e a dissimulação como forma de dirigir sua vida e, aos olhos de Bentinho, tal procedimento beirava a fronteira da falsidade, algo que não era de todo confiável.

Sobre Escobar, o sobrenome evoca, metaforicamente, a pessoa que troca muito de amante ou de namorado, assim como aquele que ganha sempre, ou quase sempre, em jogos de azar ou em sorteios.

O comportamento do personagem em questão confirma o significado do referido sobrenome. Se não é apresentado ao leitor como infiel à esposa, também não apresenta a fidelidade como marca de sua maneira de ser. Assim é que se apresentam as desconfianças de Bentinho a respeito de um envolvimento amoroso entre a esposa e o amigo.

Observa-se, pois, que o autor demonstra uma tendência mais acentuada de marcar de forma negativa a relação antropônimo-personagem, do mesmo modo que a ironia envolve, especialmente, os personagens centrais dos diferentes romances.

Pelo exposto, é possível verificar a importância do estudo do nome próprio como elemento estruturador da narrativa machadiana.

Em Machado de Assis, o nome próprio significa, não devendo ser visto como simples identificação do ser. Na qualidade de signo lingüístico, mostra-se capaz de ratificar o rigor e a precisão vocabular, freqüentemente apontados como próprios da engenharia de sua linguagem. Os antropônimos são sememas formados por traços que compõem os personagens.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

COUTINHO, Afrânio: Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, 3v.

MACHADO, José Pedro: Dicionário onomástico e etimológico da língua portuguesa. Lisboa: Confluência, 1984, 3v.

NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa, II: nomes próprios. Rio de Janeiro, 1952.



[1] Quincas Borba, p. 696.

[2] O Dicionário, p. 584.

[3] Memórias Póstumas de Brás Cubas, p.526.

[4] Idem, p.527.